quarta-feira, 20 de maio de 2009

ManchaDa

Estás a ver Dom Quixote?

Lutando contra os dragões rotineiros
Alertado por seu fiel escudeiro:
- É um moinho de vento!
O tempo...parece ser o momento

Por onde andará o cavaleiro andante?

Dançando em outros campos
Que o mal teima em trazer à tona
A brisa que faz girar o moinho
É a mesma que te leva à lona

Ama mesmo as causas perdidas?

Acreditando em tua coragem e teu porte
Estás vivendo sem ser?
Estás olhando sem ver?
Estás amando sem sentir?

Estás a SER Dom Quixote?

‘’A métrica é bela, mas nunca conheceu o calor do sentimento’’
Samuel Moura

sábado, 28 de junho de 2008

A Ponte

Do lado de lá o sol acordando
Aqui de dentro eu faço poesia
Do lado de lá os homens estão andando
Aqui de dentro só me resta agonia

Do lado de lá eles estão lutando
Aqui de dentro eu quem faço a greve do dia
Do lado de lá tomam café e vendem jornal
Aqui de dentro eu traço minha linha longitudinal

Do lado de lá ideologias ecléticas
Aqui de dentro apenas estrofes herméticas
Do lado de lá, em alguém, tenho um coração fora
Aqui de dentro meu coração chora

Do lado de lá sei que tu estás, mas não sei onde
Aqui de dentro não me acho, o sorriso se esconde
Do lado de lá, como todos, sei que és teu o dia
Aqui de dentro só minha metade faz poesia

''Depois de ter você poetas para quê? Os Deuses? As dúvidas?'' (Adriana Calcanhotto)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O poeta é...

O poeta é louco
É chucro
É lucro
É pouco

O poeta é nada
É tudo
É imagem
É semelhança

O poeta é criança
É maduro
É viagem
É retorno

O poeta é boêmio
É Buarque
É Jobim
É de Moraes

O poeta é vida
É esperança
É Aparecida
É verossimilhança

O poeta é morte
É hipocondríaco
É cardíaco
É pote

O poeta é musica
É bossa
É blues
É bamba

O poeta é amor
É amigo
É amante
É fingidor

O poeta
é poesia
A poesia
é o poeta


''Oh meu Pai, dá-me o direito de dizer coisas sem sentido, de não ter que ser perfeito, pretérito, sujeito, artigo definido, de me apaixonar todo dia, de ser mais jovem que meu filho, de ir aprendendo com ele a magia de nunca perder o brilho. Virar os dados do destino, de me contradizer, de não ter meta, me reinventar, ser meu próprio Deus...Viver menino, morrer poeta'' (Vander Lee)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Matina íntima


Poderia ter sido uma noite comum.
Ele levantou após despertar do sono que precedeu o choro. A madrugada cansou de ser cúmplice de seus sentimentalismos.
Dirigiu-se à frente do espelho, não se reconheceu, envelheceu dez anos em uma só noite. Viu em si um sujeito alegre, porém não sorriu. Os olhos embotados de silencio eram como edemas crônicos que pareciam querer saltar-lhe o pescoço, esganar e trucidar, mesmo que desconfiados.
Mostrou os dentes para o sujeito que mais parecia um gêmeo desconhecido por ele, mas ainda assim não sorriu. Viu a embalagem delgada do tubo que sorria. Se incomodou com dois corpos estranhos em cores distintas, uma fria e outra quente. Não dava pra saber qual era quem. Encarou-os por um tempo, precisava tomar à mão um deles, só não sabia qual.
Pegou o de cor fria, delgou ainda mais o tubo que já desmanchava o sorriso, calou em meio a espuma, a água e a saliva ácida. Mas qual era ele? Enquanto estufava sempre mais a boca pensava. Não sabia. Seria o frio ou o quente? Seria o gêmeo de olhos silenciosos e edemaciados?
Cuspiu aquilo que lhe calara a voz, lembrou-se de Augusto. Não se via pantera, nem enterrava sua ultima quimera, porém a mudez carregava o escarro da boca que o beijara, ou nem beijara.Pois que senão teria sido uma noite comum.


''A insensatez que você fez, coração mais sem cuidado, fez chorar de dor o meu amor, um amor tão delicado...
quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade...'' (Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Todo Tudo

É quando fecho os olhos
que vivo tudo, e todo
Fecho os olhos
quando tudo acontece
quando todo é apenas uma parte
Fecho os olhos
como tudo é real
como todo é fantasia
Fecho os olhos
pois que tudo é demasia
pois que todo é de deus
Fecho os olhos
já que tudo nasceu
já que todo é passional
Fecho os olhos
tudo clareia com o teu beijo
todo me preencho
e vivo tudo
todo

''E onde quer que eu esteja, o nosso amor tem brilho...vou ver o teu sinal'' (Oswaldo Montenegro)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Teu sentimento meu

Sentimento teu
É minha propriedade amada
É minha saudade desamparada
A busca incessante de alguma paz

Sentimento meu
Nem sempre é aquele que a mim pertence
É aquele que vence sem competir
É como aquele que acredita num Deus que ainda há de vir

Sentimento teu
Carrega a minha imagem e semelhança
A minha lembrança, a esperança, de um dia te ter
Carrega também algum sentimento meu em você

Sentimento meu anda junto ao teu
Na participação da poesia
Na ascensão gritante da minha alegria

Sentimento meu
Sempre serás teu
Desde que te lembres[e aceite]
A minha morada dentro de ti

‘’Vieste na hora exata com ares de festa e lua de prata, vieste com encantos, vieste com beijos silvestres colhidos pra mim...Vieste com a natureza, com as mãos camponesas plantadas em mim, vieste com a cara e a coragem, com malas viagens, pra dentro de mim, meu amor...‘’ (Lenine)

sábado, 17 de maio de 2008

Compreensão ou não

Eu compreendo
o cantar assim, o olhar malicioso
compreendo
os teus passos, teu ego precioso
Eu compreendo
teus vícios, necessidades
a bagunça do meu quarto
até mesmo a da cidade
Eu compreendo
tua vida, querida
compreendo
teu riso, o gozo e a festa
Compreendo também [por fim]
a desordem que tua guerra traz
a maturação de Freud
as lágrimas de Nietzsche
Só não compreendo
sua mente que não te deixa se livrar de mim
mas seu coração que não admite

me pede

pra te deixar em paz

''Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa...e qualquer desatenção, faça não! Pode ser a gota d'água...'' (Chico Buarque)