
Poderia ter sido uma noite comum.
Ele levantou após despertar do sono que precedeu o choro. A madrugada cansou de ser cúmplice de seus sentimentalismos.
Dirigiu-se à frente do espelho, não se reconheceu, envelheceu dez anos em uma só noite. Viu em si um sujeito alegre, porém não sorriu. Os olhos embotados de silencio eram como edemas crônicos que pareciam querer saltar-lhe o pescoço, esganar e trucidar, mesmo que desconfiados.
Mostrou os dentes para o sujeito que mais parecia um gêmeo desconhecido por ele, mas ainda assim não sorriu. Viu a embalagem delgada do tubo que sorria. Se incomodou com dois corpos estranhos em cores distintas, uma fria e outra quente. Não dava pra saber qual era quem. Encarou-os por um tempo, precisava tomar à mão um deles, só não sabia qual.
Pegou o de cor fria, delgou ainda mais o tubo que já desmanchava o sorriso, calou em meio a espuma, a água e a saliva ácida. Mas qual era ele? Enquanto estufava sempre mais a boca pensava. Não sabia. Seria o frio ou o quente? Seria o gêmeo de olhos silenciosos e edemaciados?
Cuspiu aquilo que lhe calara a voz, lembrou-se de Augusto. Não se via pantera, nem enterrava sua ultima quimera, porém a mudez carregava o escarro da boca que o beijara, ou nem beijara.Pois que senão teria sido uma noite comum.
''A insensatez que você fez, coração mais sem cuidado, fez chorar de dor o meu amor, um amor tão delicado...
quem semeia vento, diz a razão, colhe sempre tempestade...'' (Vinícius de Moraes)

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