
Mais uma noite. O retorno de um dia exaustivo de trabalho fez um pacto com minha dor de cabeça. Meu interior é vasto de preocupações e pensamentos, mais um do que o outro. O carro é pequeno demais para mim. Trânsito engarrafado já virou uma terapia diária. Ouço ao longe no meu rádio a mesma música chata que toca todos os dias, no mesmo horário e que tenta me convencer a cantá-la. Mas eu não tenho tempo para isso.
Lembro-me dos tempos de minha juventude, a música já não é a mesma...Por onde andam meus antigos companheiros de banda? Não tenho tempo para procurá-los. O trânsito avançou e nem me dei conta. Supri a grande distância de cerca de dez metros que me separava do carro da frente. Tiro um ‘’CD’’ em meio a vários semelhantes, mas não me preocupo com qual seja. Inicia-se a música ’’Sinal Fechado’’. Por onde andam meus amigos? Volto a pensar nos companheiros. Tempos bons!
‘’Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas sumi na poeira das ruas...’’.Que verso! Minha dor de cabeça quebra o pacto. Nem sei mesmo se ela passou, esqueci, talvez eu que tenha rompido com ela. As minhas lembranças teimavam em vir à tona. Dei-me conta que estava sorrindo. Ah, quanto tempo não sorrio. Não tenho tempo para isso.
O transito flui um pouco, mas eu, ironicamente, fico retido ao sinal, rindo dele, vermelho de raiva. Uma leve vontade de rever meus amigos me acomete. Imagino...
‘’-...beber alguma coisa rapidamente...’’
‘’- Pra semana...’’
‘’- O sinal...’’
‘’- Vai abrir...vai abrir...’’
‘’- Prometo não esqueço...’’
‘’- Por favor não esqueça...’’
‘’- Adeus...’’
‘’- Adeus...’’
Abriu. Quem sabe amanhã, no próximo engarrafamento, eu tenha tempo para o próprio, minha dor de cabeça...Meus amigos? Não tenho tempo para isso.
''E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…'' (Vinícius de Moraes)

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